08 setembro 2016

Para ti Cassiana


Para ti Cassiana.
Trouxeram-te até mim, eras ainda bebé. Tinhas sido tirada da boca de um cão. Estavas muito ferida e magoada. Foi a primeira vez que criei e tratei um pombo. Desculpa os erros que cometi contigo. Não te acarinhei como merecias, deixando-te sozinha numa caixa de cartão durante a tua infância. Talvez por isso te tornaste tão rabugenta, e eu não te compreendi. Adorava ver-te zangada e provocava-te a toda a hora. Desculpa afinal sou humana... e ainda estou a aprender a ser melhor, com seres como tu. Percebi que te tinhas tornado adulta, quando o teu piar de bebé deixou de se ouvir e começaste a arrulhar. Foi então que vi, que devias ser um rapaz e não uma menina, mas continuaste a ser a Cassiana a minha Cassiana. Passei a fazer grandes passeios contigo na esperança de te ver voar, e seres um pombo como tantos outros.


 Infelizmente tal não aconteceu. Nunca usastes as asas para voar, e sim para mostrares que eras dona e senhora do espaço que consideravas teu e só teu batendo-as com toda a força no chão.Sempre coxeaste de uma pata, e que graça tinhas quando davas os teus passeios comigo e com os teus irmãos cães. Lembro-me que tinha a sensação que eles se riam de ti quando ficavas para traz, excepto a velha Sandula, (que creio estar contigo agora), que sempre esperou por ti.


O tempo passou: meses anos e todos os dias me surpreendias. Passaste a ser a líder cá de casa. Cães e gatos todos te respeitavam e admiravam. Quando alguem desconhecido entrava, tu atacavas, guardando o espaço que era nosso. Sete anos, foi o tempo que estiveste comigo. Talvez mais sete anos ficarias, se não tivesses sido assassinada por alguem que odeia pombos. Pior ainda, foste assassinada a dois metros de mim. Nunca pensei que depois do nosso passeio no parque do costume, ao dirigirmo-nos para o banco do jardim, e ao atravessar a estrada que tantas vezes atravessamos alguem te fizesse mal. Como sempre eras sempre a ultima da fila. Os teus amigos cães já estavam a relaxar à sombra da árvore onde tantas vezes também relaxaste com as tuas asas esticadas.Estavas a dois metros de mim e eu à tua espera quando uma assassina, resolveu acelerar o carro, sair da faixa de rodagem e atropelar-te. Não queria acreditar que tal fosse possível. Tu sabes que jamais iria pôr a tua vida em perigo que tão preciosa era para mim . Corri para ti, na esperança que estivesses viva, e sim estavas viva quando peguei em ti, mas partiste assim que peguei em ti. Não quiseste partir, sem uma vez mais sentires o calor das minhas mãos, mãos essas que tantas vezes tu bicaste quando eu te queria acarinhar. Incrédula gritei bem alto: ASSASSINA, mas depois, logo fui insultada de tudo, por te ter, por te amar. e por fazeres parte da minha família. Os teus amigos cães, também ficaram tristes, lamberam-te e juntos e a chorar fizemos o teu funeral. Naquele momento, senti ter chegado a hora de usares as tuas asas. Imaginei que pairaste sobre nós, poisaste no meu ombro e depois partiste, livre e feliz. Quero acreditar que habitas um lugar onde apenas existem boas energias, que estás com os teus irmãos cães e gatos,que partiram antes e depois de ti. Usas as tuas asas e tens muitos amigos como tu. Acredito também que um dia estarei contigo e com todos os outros, que durante a sua passagem por aqui, tanto me deram. Até um dia minha querida pombinha. O teu lugar que com tanto brio tu guardavas está vazio. A tua fotografia está à entrada da nossa casa, para quem entrar ficar a saber que aqui viveu uma pomba: a pomba Cassiana. Até um dia querida amiga.